
Execração pública (*)
Maurício Siaines (**)
Não há nenhuma revelação excepcionalmente nova nas conversas telefônicas entre os
Sarney, gravadas pela Polícia Federal e publicadas na quarta-
Apesar de não haver nada de novo, tem sido grande espetáculo a exposição das tramas da família Sarney, que pode ser medido pelo tempo de televisão dedicado ao assunto, o número de páginas dos principais jornais, o grande número de cartas de leitores para esses mesmos jornais. E agora? O que o PT vai fazer? E o Lula, como é que fica? É igual a acompanhar uma novela: o que fará este ou aquele personagem diante do novo fato?
A publicação das conversas telefônicas gravadas permitem aquele prazer que se tem quando o personagem da novela é pego com a boca na botija, com todos os efeitos musicais e visuais. Agora, sim, todos os nossos desejos de vingança estão legitimados. Como os franceses, durante a revolução do final do século 18, poderíamos ir para a praça ter o prazer de ver a guilhotina funcionar.
Durante o chamado período de terror da Revolução Francesa, no ano de 1793, havia
um grupo de mulheres que todos os dias se juntavam diante da guilhotina, cada uma
levando consigo o tricô que todas faziam durante o show. Elas, conhecidas como as
tricoteiras, assistiam ao trabalho do carrasco Sansom, que consistia em deitar o
condenado com o pescoço embaixo da lâmina, deixá-
Não basta rotular de cruel o espetáculo da realização da vingança. Ele é proporcional às humilhações acumuladas durante séculos. A ideia de vingança está na letra da Marselhesa, composta naquela época, Hino Nacional da França de hoje: Amor sagrado da pátria, conduza erguidos nossos braços vingadores! (...) que um sangue impuro embeberá nossas terras.
A exposição dos Sarney satisfaz um pouco o desejo coletivo. A única novidade é terem sido pegos em flagrante, fazendo o que sempre fizeram.
Acaba sendo até engraçado ver os personagens atingidos fingindo que não era bem isso, ou que não consideravam errado, ou não tinham intenção ou qualquer coisa assim. Afinal, qual é o problema de o presidente do Congresso Nacional, arranjar um emprego para o namorado da neta de um modo bem comum, embora ilegal?
Nessa historinha está resumida boa parte das práticas seculares dos homens do poder
no Brasil. O espaço público é uma extensão de suas casas, onde eles podem fazer o
que querem. No romance A ilustre casa de Ramires, do escritor português Eça de Queirós
(1845-
Os fidalgos sempre dominaram nossa política, criando situações que favoreciam a si
próprios, com um desprezo olímpico pelos mortais comuns. Enriqueceram com a escravidão,
aderiram à república, estiveram presentes em todos os governos, sempre com aquela
cordialidade, com a fala mansa e com a tranquilidade nascida da certeza de que nada
poderia abalá-
Embora o desejo de vingança, pelo menos historicamente, seja justificável, a questão é que ela não resolve o problema de uma organização social, no nosso caso, secularmente voltada para atender aos desejos dos coronéis e seus protegidos. Não bastaria cortar as cabeças dessas figuras que controlam o poder no país. O prazer que se tem quando se veem os personagens maléficos dessa trama da política nacional pegos em flagrante não leva muito adiante. É preciso, não apenas cortar a cabeça do coronel, mas enterrar definitivamente a instituição do coronelismo, das trocas de favores, do compadrio.
(*) Originalmente publicado no jornal "A Voz da Serra Online".
(**) Jornalista
mauriciosiaines@gmail.com