
Maurício Siaines (*)
Em mais um episódio da mais recente novela em cartaz no Senado, espetáculo amplamente
difundido pela TV em horário nobre e pelos jornais em matérias de primeira página,
os senadores Renan Calheiros (PMDB-
Distintos é o que são, pois, embora pareçam até pessoas comuns em momento de desatino, digamos, em um boteco, eles fogem em tudo da ideia de igualdade. Não são gente comum, que acaba pagando pelo que faz de errado. Eles não pagam, são pagos, regiamente pagos com dinheiro público e nunca se dão mal. Sua função? Ah! Sim, eles têm uma série de obrigações, como membros do Poder Legislativo. Os distintos caracteres desses personagens, porém, sugerem dúvidas sobre sua capacidade de agir de acordo com o que prevê a Constituição nos artigos de 44 a 69. Além disso, há a questão do exemplo, que, às vezes, vai mais fundo na alma do cidadão do que um texto legal. E o que tem acontecido no Senado não é propriamente exemplar de cidadania.
Curioso notar que nenhum dos dois senadores pareceu se ofender com o título de coronel, apenas com a qualificação que vinha depois. Dava a impressão de que ambos estavam à vontade no papel de coronel. Claro que não das forças armadas, nem da PM, nem do Corpo de Bombeiros. Outro tipo.
O uso do título de coronel começou quando, no período da regência, entre o reinado
de dom Pedro I e o de dom Pedro II, em 1831, foi criada a Guarda Nacional, organização
em que chefes políticos locais ganhavam patentes, tal como os militares. Mas esses
chefes locais já existiam desde muito antes. No romance O sertanejo, publicado em
1875, José de Alencar fala de um deles, no ano de 1743, o capitão-
E o posto mais alto era o de coronel. E aí, a moda pegou e parece que dura até hoje,
como uma praga. Sociólogos e historiadores já se detiveram sobre o fenômeno do coronelismo.
Dissecaram-
Atravessando crises, momentos de profunda transformação social e política do país,
os coronéis se adaptaram às novas realidades. Amoldaram-
O coronelismo deixou de ser um fenômeno apenas rural e invadiu diferentes áreas. A política parece ser um campo fértil para os coronéis crescerem e gerarem seus filhotes. Mesmo partidos políticos nascidos de movimentos de cidadania degeneram e aderem ao modo de atuação coronelístico e por isto atraem sobre si o desprezo, o asco.
Mas talvez seja possível acabar com a praga. Bastaria seguir os princípios afirmados por nossa Constituição Federal, em seu artigo 5o, que, em 78 itens, define que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Não se trata de uma peça de ficção, todas as leis do país têm que estar de acordo com este princípio, o que significa que não há espaço, dentro da lei, para coronéis, com sua distinção, com suas normas, códigos de conduta e de fidelidade próprios. Sua sobrevivência é um vício que pode ser superado pela prática da cidadania.
(*) Jornalista
mauriciosiaines@gmail.com